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A freira católica que está fazendo uma leitura feminista da Bíblia
Em seus encontros com homens e mulheres, Tea Frigerio quebra preconceitos supostamente “fundamentados” no livro sagrado


 se a gente lesse a Bíblia com um olhar feminista? Essa é a proposta da italiana Tea Frigerio, freira missionária de Maria Xaveriana que vive no Brasil desde 1974 e no Pará desde 1980. Em seus encontros com homens e mulheres, Tea Frigerio quebra preconceitos supostamente “fundamentados” na Bíblia. Autora do livro “Leitura Feminista do Livro de Rute”, resultado da sua tese de mestrado, ela acredita que “o patriarcado, para se sustentar, precisa criar e alimentar inimizade entre as mulheres”.
Quais preconceitos você busca quebrar em seus encontros?
Dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, embora se diga que o Deus não tenha sexo, todos os paradigmas ligados a Ele são masculinos. Porém, na Bíblia, sobretudo no Primeiro Testamento, o espírito de Deus é feminino, é Ruah, a divina energia que dá vida a tudo. E quando pensamos que tudo é holístico, então não se pode ter um Deus monoteísta patriarcal.
É preciso começar a desenvolver a percepção de que o feminino também é sagrado e se o feminino é sagrado, há também uma Deusa e essa Deusa não é algo exterior a nós, pelo contrário, é interior, algo que nos habita.
É, portanto, transformar o paradigma patriarcal de Deus num paradigma de que Deus também pode ser Deusa. Mudar a forma de nomear. E no lugar de dizer “Deus te abençoe”, dizer “Fique com as bênçãos da divina Ruah”; no lugar de dizer “Deus” dizer “Deusa”…
Mas é uma questão de ver Deus como Deusa ou ver esse Divino como masculino e feminino?
Como masculino e feminino. No Gênesis diz: “façamos o ser humano a nossa imagem e semelhança”. Nós falamos de Deus através do imaginário que nós criamos. Então, eu, mulher, se sou imagem e semelhança de Deus, eu tenho todo o direito de pensar, imaginar e buscar essa imagem feminina de Deus e de descrever Deus como mãe, como força e energia feminina.
Quais outros paradigmas do texto bíblico vão contra a essência feminina?
O texto bíblico nasce num mundo patriarcal, foi escrito no mundo patriarcal, e, sobretudo, foi interpretado num mundo patriarcal. A partir disso, você pode perceber a má interpretação que foi feita dos textos bíblicos no próprio texto bíblico.
Com relação à Maria, será que Maria se encontrou grávida antes do casamento? Naquela época, se você tivesse ficado grávida antes do casamento, o que teria feito a sua mãe? Teria mandado você para um pouquinho longe de casa até assentar a poeira. Por que não pensar que o mesmo pode ter acontecido com Maria? Que os pais dela possam ter dito, “vá até lá e fique lá até que se assente a poeira e depois volta”.
Por que não se interroga que duas primas, Maria e Isabel se encontraram numa gravidez fora do tempo? Isabel que é idosa e Maria que é nova. Como é que essas duas mulheres podem ter se ajudado nessa situação difícil para ambas? Com isso, a sexualidade vista como pecado é transformada em dádiva, um dom e nos libertamos das culpas que carregamos.
Não é o caso de reverter a pirâmide: de colocar a mulher no topo e o homem em baixo, mas, sim, mudar as relações, que se tornem relações de reciprocidade, de parceria, de igualdade, de perceber que tanto o homem quanto a mulher fizeram avançar a história.
Você poderia, por favor, falar um pouco sobre o seu livro Leitura Feminista do Livro de Rute?
Brevemente, a história é assim: um casal israelita quer migrar porque tem fome e vai a Moabe. Os filhos se casam com duas móbidas. Morre o marido, morrem os filhos, ficam as três viúvas: Noeme, Rute e Orfa. A sogra Noeme decide voltar para a sua terra. E Rute, a nora, diz que vai com ela. E quando elas voltam, como é que elas vão sobreviver? Elas não têm terra, não tem o que comer e não tem filhos para garantir o futuro delas. Aí as duas se aliam para ter o sustento de cada dia, para conseguir reaver a terra que era do marido que morreu e ter um filho.
Eu quis mostrar isso: quando de inimigas as mulheres se tornam amigas, elas sabem reverter a situação e sabem dar um outro rumo à história.
Para se sustentar, o patriarcado precisa criar e alimentar a inimizade entre as mulheres. Nós, mulheres, somos amigas com muita dificuldade. Por exemplo: sogra e nora são classicamente inimigas. Elas competem por um homem. Até na própria Bíblia há essas figuras que eram inimigas, como Lia e Raquel. As duas irmãs brigam por causa do mesmo homem, Jacó. Se o marido tem uma amante, a culpa é da amante, é a mulher que foi atrás. Quantas vezes nós competimos para agradar a um homem!…
Você acha que isso está melhorando?
Eu acho que sim, mas ainda está muito introjetado em nós. A aprovação masculina, a segurança que a gente acha ter com a presença do homem, ainda é forte. Nós não nos achamos capazes, não confiamos e permitimos que o espírito competitivo seja criado entre nós.
A saída seria nos tornarmos mais amigas, honrar mais o feminino em nós. Pensar nas nossas matriarcas, as mulheres que foram importantes para nós, para as nossas vidas. É muito importante criar espaços femininos seguros onde a mulher se sinta segura para falar.
Como você entende a tensão pré-mentrual?
Eu nunca sofri, mas eu acho que isso faz parte de uma não-aceitação. Quando você não acolhe bem algo isso se torna um peso, uma dor. O patriarcado criou tantos tabus sobre o ser feminino, o tempo da menstruação como um período de impureza, que se tornou um peso para as mulheres.
Quantas mulheres dizem que é um castigo, que gostariam de ser homem para não ter menstruação, que queriam ser homem para poder ser livre. A cultura paraense é muito machista. Se você está menstruada e vai pescar, o pescador não vai pegar peixe porque é panema (um termo usado para dizer: traz azar). Tudo isso faz com que o ser mulher se torne um castigo, uma negação.
Uma vez, conversando com uma antropóloga paraense, eu perguntei para ela: “por que existem tantos tabus sobre o corpo da mulher?” Refletindo juntas, ela me ajudou a compreender: “a natureza é selvagem, é quase que incontrolável e é por isso que o homem tem necessidade de controlá-la”. Num certo sentido, a mulher também não é controlável. No seu próprio corpo: ela perde sangue e não morre. O seu modo de ser e de sentir afetivo não é racional. A sua inteligência não é uma inteligência lógica, é uma inteligência sensitiva, sensual, sensível e isso é pouco controlável. É por isso que o patriarcado fez do corpo da mulher algo impuro, para poder nos controlar.
Como você faz esse trabalho divulgando esse pensamento tão revolucionário dentro de uma religião tão fechada e tão patriarcal como o catolicismo?
Fazendo (risos). Quando me convidam, sabem que eu sou assim. Eu não vou enfrentar diretamente a Instituição. Eu aposto muito na margem, nos pequenos grupos, aos poucos…

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