Pular para o conteúdo principal

Reforma da Previdência prejudica especialmente as mulheres

Por: Carolina Santana Maluf
A proposta de reforma da Previdência, além de desconsiderar o superávit previdenciário e do Orçamento da Seguridade Social e negligenciar a cobrança quase R$ 500 milhões de grandes devedores previdenciários, também despreza a realidade em relação à aposentadoria das mulheres. 
Ao defender a equivalência entre homens e mulheres, o governo e os parlamentares que o apoiam negligenciam informações presentes no cotidiano de toda família e registradas em estudos e pesquisas sobre a jornada dupla das mulheres. Segundo o IBGE, as mulheres cumprem uma jornada de dobrada, trabalhando em casa quase o mesmo tempo da jornada do trabalho remunerado. 
Culturalmente, o cuidado com a família é uma responsabilidade atribuída quase sempre às mulheres. Em  estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) foi constatado que enquanto as mulheres – mesmo quando não têm filhos – gastam em média 26,6 horas semanais com serviços de casa, os homens gastam 10,5 horas. Quando têm muitos filhos, elas chegam a trabalhar quase cinco horas a mais por dia em casa. 
Além da carga horária maior, as mulheres têm salários menores do que os homens. Apesar de todos os avanços e das conquistas da população feminina nos últimos anos, as brasileiras estão ainda em situação extremamente desigual em relação aos homens. É claro que existem exceções, mas a regra é que as mulheres trabalham mais e ganham menos. 
Poderia até ser considerado justo homens e mulheres terem regras semelhantes para a Previdência se partissem do mesmo patamar de direitos e oportunidades. Uma realidade ainda distante do Brasil. A reforma da previdência deve ajudar a reduzir injustiças  e não agravá-las ainda mais. As diferenças entre homens e mulheres não podem ser ignoradas e a aposentadoria antecipada das mulheres foi adotada para compensar o fato das mulheres assumirem a maior parte das tarefas domésticas e cuidado dos filhos, de acordo com uma cartilha de 2006 da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, que analisa os direitos das mulheres na legislação brasileira. 
No passado, a própria Previdência Social reconheceu e assumiu o a responsabilidade de "proteção social às mulheres", porém se a proposta de reforma for aprovada, as mulheres, principalmente as professoras e as trabalhadoras rurais,  perderão esta proteção, terão retirados os dispositivos que lhes oferecia equilíbrio para compensar as desigualdades e serão muito prejudicadas.  
Aposentadoria especial 
A Reforma da Previdência também ameaça alguns benefícios garantidos aos segurados que trabalham em atividade insalubre ou penosa. Estas atividades incluem diversas profissões que expõem o trabalhador a  riscos à sua saúde, como frentistas, metalúrgicos, médicos, enfermeiros, dentistas, operadores de maquinas em fabricas e usinas, gráficos etc. 
Atualmente, quem exerce atividade em ambientes sujeitos a condições especiais, insalubres, perigosos que prejudiquem a sua saúde, tem direito a aposentadoria especial que, dependendo da atividade, pode ser requisitada após 15, 20 ou 25 anos de trabalho. A finalidade da aposentadoria especial é resguardar a integridade física do trabalhador que atua exposto a agentes nocivos  a saúde. 

A mudança proposta pela reformada previdência pretende exigir a comprovação de dano á saúde do trabalhador em decorrência da exposição aos agentes nocivos da profissão. Ou seja, a reforma vai eliminar o caráter preventivo da aposentadoria especial, e permitir que o trabalhador adoeça primeiro para depois permitir o acesso ao direito. Por exemplo, pela proposta do governo, uma pessoa que trabalha exposto a ruídos de mais de 85 decibéis terá que provar a perda auditiva para poder requerer a aposentadoria especial. 
Carolina Santana Maluf – advogada, especialista em direito previdenciário
postado por: Douglas Romário

Link reportagem:

 http://www.acritica.net/mais/opiniao-dos-leitores/reforma-da-previdencia-prejudica-especialmente-as-mulheres/206140/

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Maria Quitéria

Maria Quitéria nasceu na cidade de Feira de Santana, Bahia, em 1792. Apelidada de “Joana d’Arc brasileira”, Maria Quitéria pediu ao seu pai permissão para se alistar no exército para a luta da independência brasileira. Seu pai disse não e, é claro, ela foi mesmo assim: cortou os cabelos, vestiu as roupas do cunhado, e ficou conhecida como Soldado Medeiros. Seu pai descobriu isso poucas semanas depois, mas o comandante do Batalhão de Maria não deixou que ela fosse embora por ser uma excelente soldada. Após a descoberta trocou o uniforme masculino por saias e adereços. Sua coragem em ingressar em um meio masculino chamou a atenção de outras mulheres, as quais passaram a juntar-se às tropas e formaram um grupo comandado por Quitéria. Lutou em diversas batalhas e sua bravura foi reconhecida ainda em sua época. Com a derrota das tropas portuguesas, em julho de 1823, Maria Quitéria foi promovida a cadete e reconhecida como heroína da Independência. Dom Pedro I deu a ela o título de “Ca...

Com o tema ‘Igualdade para as mulheres é o progresso para todos’, ONU marca Dia da Mulher

“Acho que os homens e as mulheres são muito parecidos, porque existem tantos homens diferentes e tantas mulheres diferentes. Acho que a principal diferença entre os homens e as mulheres são as expectativas sociais que são colocadas nas mulheres e as expectativas sociais que são colocadas nos homens.” Este é um dos três depoimentos de um vídeo especial, em português e diversos outros idiomas, que a ONU e parceiros produziram para marcar o Dia Internacional da Mulher em 2014. A data é lembrado todo 8 de março. O tema deste ano é “Igualdade para as mulheres é o progresso para todos”. Os depoimentos são de mulheres de Madagascar, Irlanda e Nepal. “Homens e mulheres iguais? As mulheres são bem superiores”, diz a simpática mulher que vive no Nepal, acrescentando: “Não é verdade? Sem mulheres não há vida”. O projeto acima – do fotógrafo Yann Arthus-Bertrand – chama-se “7 Bilhões de Outros” e começou em 2003, consistindo em cerca de 6 mil entrevistas filmadas em mais de ...

Na rota da migração, mulheres se tornam presas fáceis

Diante do caos instalado no Oriente Médio e além, homens, mulheres e crianças diariamente partem em busca de amparo na Europa. Mas a situação não poderia ser mais difícil, principalmente para as mulheres, que estando em condições de vulnerabilidade sofrem violências de todas as formas e por todos os lados. A situação está crítica, segundo Susanne Hohne (psicoterapeuta) " quase todas as 44 mulheres que estão sob seus cuidados – entre as quais algumas que acabam de chegar à idade adulta, outras com mais de 60 anos – sofreram algum tipo de violência sexual."   “Não é uma questão de bem e mal. Se quisermos ajudar as mulheres, também precisamos ajudar os homens.” Texto completo aqui:  http://www.dm.com.br/cotidiano/2016/01/na-rota-da-migracao-mulheres-se-tornam-presas-faceis.html